Entrevista com Albano Torres
Por : Neto Gomes
“As próximas eleições, particularmente as autárquicas, podem ser uma nova oportunidade para o crescimento e fortalecimento do B.E. no Concelho, nomeadamente a participação de mais jovens na actividade politica”
Com uma postura liberal moldada nos bancos da escola e fazendo da vida, sobretudo das questões ideológicas, sempre aquilo que quis, fruto também da longa coabitação e vivência a partir de década de sessenta, com muitos homens da cultura e da política que nunca se “amarraram” a coisa nenhuma, mas fazendo da defesa dos valores, da sensatez e da ideologia a sua grande bandeira, AlbanoTorres depois de quase aportar às muralhas do PS, sobretudo pela longa relação de amizade e pela força logística que sempre representou para as campanhas eleitorais de Joaquim Vairinhos, assumiu definitivamente uma importante ligação ao Bloco de Esquerda, desenho politico que afinal há muito defendia e evocava.
Contudo, nessa longa travessia até chegar ao Bloco de Esquerda, Albano Torres inspira o M17. Movimento que poucos procuraram levar a sério mas que enquanto procurou estabelecer diálogos e saberes com outras consciências políticas, sobretudo “gente de intervenção”, foi uma matriz importante até nas ideias que fizeram sobreviver alguns políticos da “nossa Praça”.
Nas últimas eleições autárquicas e não sendo capaz de resistir aos solavancos e desaires “do tempo que passa”, Albano Torres aparece finalmente e de forma inequívoca ao lado das ideias e das políticas do Bloco de Esquerda, conquistando então um espaço na Assembleia Municipal, que parecendo uma “lança em África” era sobretudo uma espécie de vitória nunca ou então raramente conseguida por outras forças políticas então com outra tradição e maior espaço de intervenção.
Quase quatro anos após, impunha-se saber um pouco sobre a experiência política de Albano Torres na Assembleia Municipal, mas também a própria intervenção do Bloco de Esquerda na vida política do Concelho, sem deixarmos de roçar ainda que ligeiramente sobre as questões nacionais que mais despertam a actual caminhada politica do Bloco de Esquerda.
Que balanço fazes do papel que o Bloco de Esquerda tem desempenhado na Assembleia Municipal?
-“É um balanço tão simples, como responsável e pragmático. Apresentar alternativas, propor outras vias, soluções ou atitudes. Aprovar ou rejeitar opções para a gestão e objectivos da coisa pública, privilegiando mais equidade e justa distribuição da receita, prosseguindo um desenvolvimento sustentável e marcadamente social, evitar o despesismo ou obra de fachada, seriam grosso modo as traves mestras da política a prosseguir pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal.
Fazendo um balanço honesto há que reconhecer que as expectativas não foram totalmente atingidas, seja porque as disponibilidades de tempo e recursos, e quiçá as capacidades, foram insuficientes e sistematicamente agravadas pelo atraso com que nos chegaram as propostas e” dossiers” enviados pelo executivo camarário. Não sendo um balanço óptimo é no entanto positivo, pois julgo que o contributo dado pelo BE com moções, recomendações ou sugestões contribuíram para uma atitude politica mais próxima dos nossos objectivos.”
Pensas que a tua intervenção tem sido importante não apenas em termos de orientação politica mas também no conceito da cidadania já que os militantes e simpatizantes do BE passaram a ter uma voz da Assembleia Municipal?
-“A maioria absoluta da bancada PSD na Assembleia Municipal confirma e sustenta a orientação politica definida pelo executivo, igualmente maioritário, o que é normal. Qualquer alteração de posição ou acréscimo ao exercício da cidadania só são viabilizados pela sensatez política do executivo. De notar no entanto a inexistência de autonomia da bancada PSD em relação ao executivo, o que desvirtua o exercício democrático e diminui as potencialidades deste órgão.
Ser Poder não é sinónimo de infalibilidade, tal como ser Oposição não significa ser sistematicamente do contra. Entre parêntesis, assinalo a aprovação pelo PSD do Orçamento para 2009 com o valor megalómano de 220 milhões de euros, um acréscimo de 33,70% que não tem correspondência com as receitas possíveis. O rigor e sensatez dos anteriores orçamentos deram lugar ao exibicionismo insensato.
Quatro anos depois é possível manter a mesma posição na Assembleia Municipal ou o Bloco de Esquerda tem outras perspectivas quanto aos próximos resultados eleitorais?
-“É possível manter a presença de um deputado do Bloco de Esquerda, talvez mesmo aumentar,
devendo-se tal mais ao bom desempenho do Partido a nível central do que local. Embora a disputa eleitoral não seja a primeira prioridade do Bloco de Esquerda, mas incentivar e apoiar as lutas e causas por mais cidadania, justiça social e igualdade.”
A par do trabalho na Assembleia Municipal quais têm sido as outras actividades que têm vindo realizar no Concelho de Loulé?
-“Outras actividades foram diminutas, confinando- se principalmente à difusão e apoio das iniciativas do Partido a nível nacional.”
No âmbito nacional como é que interpretas as várias acções que têm sido desenvolvidas entre algumas figuras da esquerda, incluindo Manuel Alegre e o próprio BE?
-“A prossecução pelo Governo Socialista das politicas neo-liberais já implementadas pelos governos de Durão Barroso e Santana Lopes conducente á actual aflição capitalista global, o aumento das desigualdades e do maior fosso europeu entre ricos e pobres, a entrega aos privados e desmantelamento do serviço publico de saúde, o cercear de liberdades fundamentais, etc., incomodaram o deputado Manuel Alegre que se senta na bancada dos apoiantes do governo. A incomodidade foi ao ponto de ameaçar sair do Partido Socialista e formar novo partido e alinhar com o Bloco e outras sensibilidades da Esquerda na organização de debates de protesto. Faz falta um forte abanão na paz podre deste bloco central que desgoverna o país há três décadas, uma rebeldia activa que congregasse forças sãs e perspectivasse a saída deste marasmo. Mas…não será a rampa de lançamento do Dr. Alegre na corrida a Belém?”
As próximas autarcas são decisivas para a intervenção do Bloco de Esquerda no Concelho de Loulé?
-“As próximas eleições, particularmente as autárquicas, podem ser uma nova oportunidade para o crescimento e fortalecimento do B.E. no concelho, nomeadamente a participação de mais jovens na actividade politica.
Que mensagem para os militantes e simpatizantes do BE quando se aproximam grandes e importantes desafios?
-“Estou convicto que o Bloco de Esquerda constitui o espaço mais aberto e descomprometido para o debate e acção política, sem os entraves e posturas dogmática e “aparelhista” das formações politicas tradicionais, constituindo talvez o único movimento que incentiva uma acção colectiva liberta do autoritarismo e corporativismo do sistema partidário.”
1 de Janeiro 2008 - Voz de Loulé